terça-feira, 29 de outubro de 2019

Rua José Falcão

Implantada a República em 1910, e eleita por aclamação popular uma Comissão Administrativa municipal, um dos seus primeiros atos foi o de alteração de nomes de largos e ruas, rejeitando o passado e exaltando novos heróis prestigiados com a ideia republicana.
Por trás da Biblioteca Geral, essa viela, que era a rua da Trindade,  por  ali ter havido nos Séculos XVI ao XIX, o Colégio da Trindade, no âmbito das mudanças, virou a rua José Falcão.
A escolha do novo nome, foi uma homenagem a um antigo morador, o matemático e astrólogo que desempenhou funções docentes na Universidade de Coimbra e de direção no Observatório Astronómico de Coimbra, Dr. José Joaquim Pereira Falcão (1841-1893), e que foi um dos mais


prestigiosos representantes da ideia republicana e um dos mais operosos e sinceros propagandistas.
O prédio por ele habitado, quase em frente das escadas de Minerva, com estrutura apalaçada mas simples em decoração exterior, é um dos poucos exemplos preservados da arquitetura da Alta Coimbrã do século XIX, e foi mandado construir pelo seu sogro Dr. Antonino Henriques em 1856.
Identifica-se facilmente, por uma lápide na esquina, desenhada por António Augusto Gonçalves e esculpida pelo canteiro João Machado, onde se lê: “Nesta casa faleceu o Dr. José Falcão em 14 de Janeiro de 1893”.
Este edifício, esteve na origem de  um conflito entre o Município e o único filho e herdeiro de José Falcão então, instalado como advogado na cidade do Porto.  Paulo José Falcão como não teve descendentes resolveu contemplar em testamento, como herdeiro universal, o 'Asilo da Infância Desvalida', que, desde 1967, passou a chamar-se ‘Casa da Infância Doutor Elysio de Moura',  ali vizinha, e que ocupa  o antigo Colégio de Santo António da Pedreira. Em 1942, a Câmara Municipal, deliberou que a rua se voltasse a denominar rua da Trindade. Quando Paulo Falcão soube da deliberação, tornou ciente a direção do Asilo de que, ofendido como se encontrava ante o que ele considerava um desacato para a memória de seu pai, ia revogar aquela disposição da última vontade.
Perante esta ameaça, a deliberação de 1942 foi considerada nula e o 'Asilo da Infância Desvalida', veio a ser herdeiro universal de Paulo Falcão.

Entretanto, no edifício onde morou e morreu José Falcão surgiu uma unidade hoteleira e das ruínas do Colégio, nasceu nos últimos anos a Casa da Jurisprudência que permitiu uma necessária e importante expansão da Faculdade de Direito.
Com o antigo Colégio, morreu também a mítica e antiga taberna – o Pratas, que lhe ocupava uma pequena e insalubre parte e que dava vida à rua!

“Da Universidade à rua José Falcão,
Vai um pulo de anão,
Oráculo de vinho sem oração,
Em honra de Dionisio e Baco prazenteiros;
Morava o Pratas bonacheirão,
Alegre vendedor de carrascão,
Surrupiava trocos de académicos festivaleiros!

in José Alberto de Brito Cardoso, “A capuchinha de minha mãe”

domingo, 13 de outubro de 2019

Instituto Pasteur de Lisboa


Em 1898, Virgínio Leitão Vieira dos Santos um comerciante ligado ao negócio de vinhos em Salvaterra de Magos, funda numa sobreloja da Praça Luís de Camões, em Lisboa, o Laboratório Pasteur, que vem a denominar-se posteriormente, Instituto Pasteur de Lisboa.
Esta casa, passou a ser depositário de soros e vacinas produzidos pelo importante Institut Pasteur de Paris, vanguardista na pesquisa científica de doenças infeciosas e que veio a estar na origem de descobertas revolucionárias que permitiram à medicina controlar doenças infeciosas e epidémicas.
O Instituto Pasteur de Lisboa possuía quatro secções: Secção de fotografia, compreendendo tratamentos por métodos fototerapêuticos e pelos raios X, serviço de pensos, exame de doentes pelos raios X, Secção de análises clínicas industria e agrícolas, Secção de bacteriologia e Secção de farmácia e produtos esterilizados.

Paralelamente, comercializava ainda, leveduras selecionadas de todos os vinhos portugueses e estrangeiros, artigos de higiene, leites puros esterilizados e medicinais e ainda fabricava e vendia instrumentos cirúrgicos, mobiliário e material hospitalar.
Nos primeiros dias de Junho de 1942, o Instituto Pasteur de Lisboa, com vontade de expandir a sua área de negócio, inaugurou a delegação de Coimbra que passou a ter como diretor o Dr. Alfredo Chaves de Carvalho. Ao ato inaugural assistiram principalmente entidades académicas e cientificas. Estiveram o Dr. Maximino Correia, vice-Reitor da Universidade, Dr. Novais e Sousa, diretor da Faculdade de Medicina, professores clínicos e representantes da Imprensa.
Na altura, a cidade ficou mais rica, com uma oferta comercial de grande valor, e com um edifício imponente na rua Visconde da Luz. Com um beiral que encima o primeiro andar e respetiva janela oval, o recorte que encima a entrada do edifício, janelas em madeira no terceiro andar e os azulejos com que recortam zona as janelas do último andar.
Com desaparecimento dos interesses comerciais do instituto, o edifício foi-se degradando, perdendo até o seu nome, mas objeto de reabilitação, voltou a ser um dos prédios da baixa de Coimbra, com maior beleza.

1º Festival de Rock Yé-Yé


Em Abril de 1966 realizou-se no Teatro Avenida, em Coimbra, o "1º Festival de Rock Ye-Yé", em que participaram grupos musicais vindos de vários pontos do país. A representar Coimbra, dois agrupamentos: os "Cocktails" e os "Protões", formados por jovens com idades compreendidas entre os 16 e os 18 anos.
Era a festa do "rock", e o grande Teatro Avenida tomou-se numa pequena sala para comportar o elevadíssimo número de jovens que acorreram ao espetáculo. Durante as atuações dos grupos, ao som de gritos e histeria, choveram para o palco algumas batatas, tomates e milho - não numa manifestação de desagrado, mas antes como forma de toda aquela "malta", interagir com os músicos. Eram os "anos de ouro" da música rock em Coimbra.

Os "Cocktails" (foto) impressionaram a assistência (e o júri) do espetáculo com uma excelente interpretação do "We can work it out", dos Beatles, conquistando o 1º lugar. O grupo coimbrão era então constituído pelo Manso (guitarra), Gonzaga (bateria), Colaço e Romão (guitarras).

Última Barca Serrana


A navegabilidade do rio Mondego até à foz, permitia uma maior facilidade e rapidez na deslocação de pessoas e nas trocas comerciais.
O progresso rodoviário ainda estava longe, caminho-de-ferro não existia para o interior e a rapidez e baixo custo do transporte fluvial transformaram o Mondego, da nascente até à foz, no responsável pela subsistência e economia das populações por ele banhadas.
As embarcações desciam o rio, carregadas de madeira, lenha, carqueja ou carvão, com destino a Coimbra e Figueira da Foz, trazendo, no regresso, sal, pescado, milho, pipas 
de vinho e outras mercearias. Era nelas, também, que as lavadeiras das terras a montante de Coimbra levavam a roupa suja da população da cidade e regressava com a ela a cheirar ao aromático sabão marselha.

Vários eram os portos importantes no carregamento e descarregamento de mercadorias ao longo do Mondego, no século XIX e ainda em parte do século XX.
Entre outros tipos de barco que navegavam ao longo do Mondego, a que se impôs pela sua capacidade de transporte e carga, foi a Barca Serrana. Foi ela que deixou o seu nome ligado ao Mondego e que navegava diariamente pelas águas do rio, comandada pelo arrais, ora de vela desfraldada, ora puxada à sirga. De inverno, com as cheias, os barqueiros, usando uma vara, deslocavam-se ao longo dos bordos (com 16 cm de largura), que muitas vezes se encontravam cobertos de pez e farelo para não escorregarem, e assim vencer a velocidade da corrente!
Com o transporte terrestre alternativo o desaparecimento destas embarcações era inevitável. Resta a preservação da memória coletiva em relação à Barca Serrana. Para isso, continuam a construir-se réplicas de tamanho reduzido, cerca de 7/8 metros para ser colocadas em lugares turísticos, mas o exemplar melhor conservado e sem dúvida o maior de todos 16/17 metros, é o que se encontra patente no átrio do Museu da Marinha em Belém. Foi esta a última barca serrana a navegar no Mondego com destino à Figueira da Foz, fê-lo em 1965, para daí seguir, embarcada para o Museu da Marinha . Nesta última viagem, levou um passageiro muito especial, o Professor Doutor Luís Mendonça de Albuquerque que apesar de doutorado em Matemática, ficou na memória de quem o conhecia ou conhece a sua obra, na qualidade de Historiador – historiador dedicado e rigoroso – vocacionado para a História da Expansão Portuguesa e, sobretudo, para a História da Náutica. Produtor de uma vastíssima obra sobre ciências náuticas e dos descobrimentos marítimos quinhentistas, o Prof.º Luís de Albuquerque era um homem simples, cuja grandeza intelectual tanto honra a Universidade de Coimbra, onde foi professor!
Esta iniciativa, teve para além do Prof. Dr. Luís de Albuquerque, os  Prof. Arq. Octávio Lixa Felgueiras, Engenheiro Cabral Moncada, Dr. António José Soares e outros, todos na qualidade de amigos do Museu da Marinha.


sábado, 12 de outubro de 2019

Rua do Brasil


O Mondego ocupava quase todo o espaço onde atualmente é o Parque da Cidade. O troço de estrada que sai da Portagem para o Calhabé não existia. O rio vinha em época muito anterior até próximo das muralhas da cidade; depois, quando se construiu a ladeira (Couraça da Estrela), que vai em direção à rua da Alegria, existia ali uma ínsua e uma escada de pedra, que era utilizada pelas mulheres para acarretarem cântaros de água para consumo da parte alta da cidade. O transito que a partir da Baixa queria ir para a Portela ou sair da cidade para as Beiras, fazia-se pela rua da Alegria passava na 
falda do Jardim Botânico (antiga Cerca dos Bentos) até ao fundo da ladeira que se lhe chama “do Batista” e passando pela Arregaça, Calhabé, Fonte da Cheira, Nogueiras,  e seguia pelo Alto de S. João para a Portela.

 Depois de 1850, com as obras de grande transformação de Coimbra, demoliu-se parte da ponte, é   Parque da Cidade, conclui-se os paredões e o trânsito passou a circular sem ter que subir a rua da Alegria.  Tinha-se assim uma verdadeira Estrada da Beira em Coimbra.
feito o aterro fazer o
Emídio Navarro, muda-se de Viseu para Coimbra onde por vontade da família pretendia  estudar Teologia. Coimbra como terra de paixões que é, entra de amores com uma jovem, corta relações familiares e matricula-se em Direito.
Na ausência do  apoio financeiro da família como forma de subsistência trabalha como jornalista, chegando a fundar diversos jornais, como A Academia, Transmontano, Correio da Noite e Novidades e colaborou ainda na revista Brasil-Portugal.
Já formado em Direito, com país a viver em Monarquia Constitucional, Emídio Navarro ocupou cargos ministeriais nas áreas do Ensino Técnico e Agrícola, e nas Obras Públicas. Foi enquanto responsável por esta pasta que fez uns “jeitinhos” à cidade de Coimbra no alargamento do Cais das Ameias e do seu ajardinamento, no "Passeio Público" frente à Estação Nova e ao longo do rio, com áreas ajardinadas e arborizadas.
Para que o seu empenhamento não fosse esquecido, por proposta dos vereadores António A. Gonçalves e Manuel A. R. Silva, foi deliberado em 31 de março de 1888,  dar o nome de “Avenida Emídio Navarro” à projetada avenida entre o Porto dos Bentos e a Estação Nova.
Lá ficou a Estrada da Beira mais curta!
Em 1960, o V centenário da morte do Infante D. Henrique, constituiu comemorações de grande aparato. Houve delegações regionais por todo  o país com presenças de diretores de Institutos, Associações, Universidades, Camaras Municipais e outros.
Entre os visitantes estrangeiros em homenagem à memória do Infante, veio a Coimbra o Presidente da República Brasileira, Juscelino Kubitschek de Oliveira, a 9 de Agosto de 1960,  sendo nessa ocasião doutorado honoris causa pela Faculdade de Direito. 
A cidade entrou em euforia para ver a bandeira auri-verde do Brasil entrelaçar na de Portugal a exprimir o sentimento de amizade entre os dois povos e a esse propósito, o Presidente da Câmara, Dr. Moura Relvas, propõe que se ignore uma atribuição em 1955 do nome Brasil a uma rua em projeto, e que a chamada Estrada da Beira passe a designar-se Rua do Brasil na parte que vai da Avenida Emílio Navarro (Porto dos Bentos) até à extremidade nascente da Rua de Moçambique (Nogueiras), ideia prontamente acolhida por todo o executivo e passaram a fazer-se preparativos para a cerimónia de inauguração da lápide com o nome Brasil que acabava de ser dado à Estrada da Beira. Marcada uma nova manifestação de afeto para o dia 21 de Outubro de 1960, um convite especial ao Embaixador do Brasil em Portugal, Dr. Negrão Lima e a mais uma meia dúzia de oradores. Tudo a postos! As placas nas paredes dos topos da rua, cobertas com as bandeiras dos dois países, discursos bem preparados, lidos e relidos e eis que um grande temporal fustiga a cidade, forçando a que a cerimónia de inauguração da Rua do Brasil se realizasse no salão nobre  dos Paços do Concelho e o descerramento da lápide não pudesse acontecer.


Um acontecimento, inovador para a época. Hoje, mesmo com internet, inaugurar à distancia não é seguramente vulgar!

Palácio dos Grilos


O Colégio de Santa Rita ou dos Grilos pertencente à Ordem dos Eremitas descalços de Stº Agostinho (“frades grilos”), confinante com as ruas, da Ilha, e do Dr. Guilherme Moreira, teve uma vida curta enquanto casa de religiosos.

Devido à lei que extinguiu e expulsou as Ordens religiosas em Portugal em 1834, o colégio existiu mais ou menos 80 anos. Posteriormente o edifício foi ocupado pela Administração Geral do Distrito, e posteriormente posto à venda e adquirido, pelo Dr. Adrião Pereira Forjaz de Sampaio, onde viveu até 1870.

A partir daí a ocupação foi diversificada. Por lá passaram dois colégios masculinos: o Colégio de S. Filipe Neri e o Colégio Académico e o feminino  Colégio de S. José de Coimbra, pertencente à Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena que depois passou para a zona da Conchada. Foi sede da Associação Académica, e atualmente secretaria-geral e outros serviços da Universidade de Coimbra.
Enquanto alugado a particulares,  teve dois inquilinos que vieram a tornar-se figuras dominantes na sociedade Portuguesa, um no Estado e  outro da Igreja.  Primeiro como estudantes, depois como professores,  Salazar e Cerejeira,  viveram de 1915 a 1928  no, por exagero chamado “Palácio dos Grilos”. Como nem um nem outro estavam, vocacionados para os afazeres domésticos, pagavam esses serviços a criadas que entravam e saiam ao ritmo das insatisfações de ambos.
A limpeza e o asseio resultavam sofríveis, mas pior eram mesmo os cozinhados, onde faltavam cuidados e saberes e a inexatidão de contas sempre a favor delas. O problema carecia de solução feminina com outro aprumo nas tarefas e honestidade e outra mão para satisfazer os apetites de Salazar e de Cerejeira.
É aí que aparece Maria de Jesus, mulher experiente de Penela já com currículo a preceito, à custa de anteriores serviços a família prestigiada e apostada em conquistar uma nova vida na cidade académica, e é aí que irá trabalhar para os, então, docentes António Oliveira Salazar e Manuel Gonçalves Cerejeira. Maria de Jesus traz consigo a rudeza e a determinação da terra, “inteligência” e “vontade firme", duas das características ou qualidades que os dois lhe apreciavam.
Não tardou que a governanta impusesse a sua presença e atributos junto dos dois ilustres professores, a partir da faxina e da cozinha. Também não espantaria que mais tarde Salazar a levasse consigo quando assumiu funções governativas. O primeiro esfriamento entre os dois amigos dá-se, precisamente, por causa de Maria.
Fala-se na mudança para a Capital e Salazar propusera continuarem a viver os três numa nova casa, mas Cerejeira, já em ascensão na Igreja, recusa, insinuando que a partir dali tudo será diferente. Em Lisboa, dirá o futuro cardeal, “apartamos os nossos caminhos”, decidindo apenas encontros esporádicos, chegando a molestar a amizade entre os amigos.
Salazar tinha mais que fazer e precisava de quem lhe pusesse ordem nas miudezas e lhe organizasse o quotidiano, razão de ter ficado com Maria para si, que passou a ser a sua versão feminina, verdadeira guardiã do regime entre portas e assim dedicada até ao final do ditador!

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Mais uma corrida, mais uma viagem…

Dos acontecimentos passados que fazem perdurar memórias e emoções, aqui está uma cheia de encantos. No Largo do Arnado, uma pista de carrinhos de choque idêntica a outras que se instalavam em vários locais da cidade. As faíscas a saltar do chão, o “cheiro” a eletricidade, e a adrenalina que provocavam eram uma divertida alternativa a matinés
cinematográficas ou circenses, tardes desportivas, ou bailes de garagem. Rodar de forma destemida aos comandos de um veículo, aos gritos, a provocar choques sucessivos, a fazer curvas orbitárias e chegar ao fim da corrida pintados de nódoas negras, era um dos grandes fascínios deste divertimento.
Havia quem quisesse mostrar o seu poderio de “engate”, marcavam a gaja/gajo mais a seu gosto, iam sempre no encalço desse carro, o que levava sempre a inevitáveis choques frente a frente como se fosse um primeiro beijo. Da cabine e já com pouco fôlego, o “speaker” de voz enrolada anunciava: esta corrida terminou, mais uma corrida, mais uma viagem… as crianças não pagam mas também não andam!