Implantada a República em 1910, e eleita por aclamação
popular uma Comissão Administrativa municipal, um dos seus primeiros atos foi o
de alteração de nomes de largos e ruas, rejeitando o passado e exaltando
novos heróis prestigiados
com a ideia republicana.
Por trás da Biblioteca Geral, essa viela, que era a
rua da Trindade, por ali ter havido nos Séculos XVI ao XIX, o Colégio da
Trindade, no âmbito das mudanças, virou a rua José Falcão.
A escolha do novo nome, foi uma homenagem a um antigo morador,
o matemático e astrólogo que desempenhou funções docentes na Universidade de
Coimbra e de direção no Observatório Astronómico de Coimbra, Dr. José Joaquim
Pereira Falcão (1841-1893), e que foi um dos mais
prestigiosos representantes
da ideia republicana e um dos mais operosos e sinceros propagandistas.
O prédio por ele habitado, quase em frente das escadas de
Minerva, com estrutura apalaçada mas simples em decoração exterior, é um dos
poucos exemplos preservados da arquitetura da Alta Coimbrã do século XIX, e foi
mandado construir pelo seu sogro Dr. Antonino Henriques em 1856.
Identifica-se facilmente, por uma lápide na esquina,
desenhada por António Augusto Gonçalves e esculpida pelo canteiro João Machado,
onde se lê: “Nesta casa faleceu o Dr. José Falcão em 14 de Janeiro de 1893”.
Este edifício, esteve na origem de um conflito entre o Município e o único filho
e herdeiro de José Falcão então, instalado como advogado na cidade do
Porto. Paulo José Falcão como não teve
descendentes resolveu contemplar em testamento, como herdeiro universal, o 'Asilo
da Infância Desvalida', que, desde 1967, passou a chamar-se ‘Casa da Infância
Doutor Elysio de Moura', ali vizinha, e que
ocupa o antigo Colégio de Santo António
da Pedreira. Em 1942, a Câmara Municipal, deliberou que a rua se voltasse a
denominar rua da Trindade. Quando Paulo Falcão soube da deliberação, tornou
ciente a direção do Asilo de que, ofendido como se encontrava ante o que ele
considerava um desacato para a memória de seu pai, ia revogar aquela disposição
da última vontade.
Perante esta ameaça, a deliberação de 1942 foi considerada
nula e o 'Asilo da Infância Desvalida', veio a ser herdeiro universal de Paulo Falcão.
Entretanto, no edifício onde morou e morreu José Falcão
surgiu uma unidade hoteleira e das ruínas do Colégio, nasceu nos últimos anos a
Casa da Jurisprudência que permitiu uma necessária e importante expansão da
Faculdade de Direito.
Com o antigo Colégio, morreu também a mítica e antiga
taberna – o Pratas, que lhe ocupava uma pequena e insalubre parte e que dava
vida à rua!
“Da Universidade à rua José Falcão,
Vai um pulo de anão,
Oráculo de vinho sem oração,
Em honra de Dionisio e Baco prazenteiros;
Morava o Pratas bonacheirão,
Alegre vendedor de carrascão,
Surrupiava trocos de académicos festivaleiros!
in José Alberto de Brito Cardoso, “A capuchinha de minha
mãe”






