O Convento de S. Domingos, já se havia instalado em Coimbra
no sitio da Figueira Velha (ao lado do atual edifício dos CTT na Av. Fernão de
Magalhães) mas, teve de se transferir para a rua da Sofia, dado o assoreamento
do rio e suas inundações.
Por
volta de 1549 arrancaram, as obras em terrenos cedidos pelos frades de Santa
Cruz, proprietários daquela via, não para um mas para dois edifícios distintos:
um para casa conventual dos religiosos da Ordem dos Pregadores (Dominicanos),
que não foi concluída como o previsto por falta de verbas e outro para o
Colégio de S. Tomás de Aquino destinado ao ensino e residência dos Dominicanos
universitários, lentes ou estudantes.
A construção inicial do colégio era muito pobre, tendo ganho
importância com a execução do portal, de que se encarregaram o escultor António
Fernandes e os pedreiros Pedro Luís e João Luís. Em 1555, sob orientação do
arquiteto Diogo de Castilho iniciou-se a construção do claustro do tipo comum
dos claustros quinhentistas conimbricenses da Renascença.
Em 1566, o edifício estava em condições de ser utilizado,
funcionando como Colégio Universitário.
Em 1834, no âmbito da "Reforma geral
eclesiástica" empreendida por Joaquim António de Aguiar, executada pela
Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837, foram extintos todos os
conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as
ordens religiosas, ficando as de religiosas, sujeitas aos respetivos bispos,
até à morte da última freira. O Colégio de S. Tomás como ficou conhecido não
escapou aos efeitos da Revolução Liberal e em 1837, foi incorporado nos bens da
Fazenda Nacional.
O edifício foi caindo em abandono até que em 1892, é
colocado à venda no jornal local O Conimbricense e adquirido pelo político João
Maria Correia Aires de Campos (1847-1920), feito 1º Conde do Ameal pelo rei D.
Carlos, em 1901, arqueólogo, investigador de temas históricos, grande
colecionador de arte, bibliófilo e detentor de uma das mais importantes
coleções privadas de arte do país, sobretudo de pinturas, porcelanas e
faianças, nacionais e estrangeiras e de uma das maiores bibliotecas privadas do
país.
O projeto e transformação do antigo colégio para receber e
exibir as numerosas coleções ficaram a cargo do arquiteto Silva Pinto.
Apesar da sua firmada experiência museológica, não existia
ainda em Coimbra nenhum museu público de arte de referência, e é assim que
nasce um “verdadeiro museu provincial”.
Os seus quartos, apesar do exterior clássico e sóbrio do
prédio, eram repletos de móveis preciosos, pinturas de mestres antigos e cerca
de 30.000 livros raros, enquanto o palácio se transformava em um vibrante salão
cultural. A sua coleção de pinturas, que no seu auge somava mais de 600 peças
exibidas em 10 salões, incluía telas de Rembrandt, Rogier van der Weyden,
Pieter e Jan Breughel, Rubens, Caravaggio, Guido Reni, Pietro da Cortona,
Ribera, Zurbarán, Rembrandt, Salvator Rosa, Luca Giordano, Murillo,
Jean-Pillement, Goya, Fortuny ou Carolus.
Grande admirador de pintores portugueses contemporâneos,
particularmente da escola realista que estava no auge da sua popularidade, o
Conde do Ameal também possuía uma grande coleção de telas e desenhos de Silva
Porto, Alfredo Keil, Artur Loureiro, José Malhoa, João Vaz ou Veloso Salgado,
passando pelo pintor seiscentista Diogo Pereira, por Vieira Lusitano, Domingos
Sequeira, Vieira Portuense, António Manuel da Fonseca ou Francisco Metrass.
Patrocinou alguns artistas portugueses contemporâneos, a saber, o discípulo de
Silva Porto, Ezequiel Pereira, que ele enviou para Paris e Bretanha na década
de 1890. Outras partes importantes da coleção do conde foram a seleção de
porcelana e faiança islâmica, a maioria ibérica e o final da Idade Média, que
somavam cerca de 800 peças, e sua coleção numismática, já iniciada por seu pai,
que contava 3558 moedas.
O Conde do Ameal, dotado de imensos predicados em vida,
acabaria por se tornar mais conhecido pela desagregação da sua coleção de arte
do que pela forma como esta foi constituída ou mesmo pelos objetos que a
integraram.
Vitimado por uma “congestão cerebral”, a sua morte no dia 13
de julho de 1920 abre caminho para a 18 de Julho do ano seguinte, Coimbra
começar a assistir ao desfazer de uma das mais interessantes, preciosas e
acarinhadas coleções de arte que no nosso pais existia.
O leilão Ameal talvez tenha sido o acontecimento ligado à
Arte mais curioso e emocionante do último século com bons e maus negócios onde
as cotações vistas a esta distância mostram a importância do evento - (exemplo:
“ O Rebanho” de Silva Porto 26.900$00). O governo proibiu a saída de peças para
o estrangeiro, o que através de delegados portugueses acabou por não dar efeito
e o Ministro da Instrução determinou que antes do leilão deveriam ser
adquiridas ao preço de avaliação, as peças que interessassem aos museus de
Lisboa e Porto, tendo também sido adquiridas peças para o Museu Grão Vasco em
Viseu.
Coimbra apenas as viu passar… nada foi feito para que
algumas obras de arte ficassem na cidade.
A distintíssima e fidalga família dos Ameais da Rua da
Sofia, pode assistir, entre saudades e tristezas, que não se confessam, ao
desmanchar daquela feira preciosa de documentos universais de arte, e após a
feira, à almoeda pública do palácio, do solar, dos jardins, dos claustros, de
tudo o que foi o antigo Colégio de S Tomás.
E porque muitos dos velhos edifícios conventuais foram
transformados em quartéis, tribunais ou repartições, alterando-lhes sempre a
primitiva traça ou demolindo-os totalmente, o Colégio de S. Tomás não fugiu à
regra. A 27 de Janeiro de 1928 o Ministério da Justiça adquiriu o edifício por
625 contos, com a finalidade de nele se acomodarem todos os serviços judiciais
da Comarca e da Relação de Coimbra.
Se a primeira remodelação foi essencialmente de
interior, a segunda para adaptar a casa da justiça alterou toda a traça antiga,
incorporou trabalhos escultóricos, serralharia artística, marcenaria executados
por artistas conimbricenses e painéis de azulejo nos quais Jorge Colaço primou.
Do primitivo colégio ainda se pode observar a bela
arcada renascentista do claustro, enquanto que o magnifico portal é hoje parte
integrante da parede externa do Museu de Machado de Castro.