terça-feira, 29 de outubro de 2019

Rua José Falcão

Implantada a República em 1910, e eleita por aclamação popular uma Comissão Administrativa municipal, um dos seus primeiros atos foi o de alteração de nomes de largos e ruas, rejeitando o passado e exaltando novos heróis prestigiados com a ideia republicana.
Por trás da Biblioteca Geral, essa viela, que era a rua da Trindade,  por  ali ter havido nos Séculos XVI ao XIX, o Colégio da Trindade, no âmbito das mudanças, virou a rua José Falcão.
A escolha do novo nome, foi uma homenagem a um antigo morador, o matemático e astrólogo que desempenhou funções docentes na Universidade de Coimbra e de direção no Observatório Astronómico de Coimbra, Dr. José Joaquim Pereira Falcão (1841-1893), e que foi um dos mais


prestigiosos representantes da ideia republicana e um dos mais operosos e sinceros propagandistas.
O prédio por ele habitado, quase em frente das escadas de Minerva, com estrutura apalaçada mas simples em decoração exterior, é um dos poucos exemplos preservados da arquitetura da Alta Coimbrã do século XIX, e foi mandado construir pelo seu sogro Dr. Antonino Henriques em 1856.
Identifica-se facilmente, por uma lápide na esquina, desenhada por António Augusto Gonçalves e esculpida pelo canteiro João Machado, onde se lê: “Nesta casa faleceu o Dr. José Falcão em 14 de Janeiro de 1893”.
Este edifício, esteve na origem de  um conflito entre o Município e o único filho e herdeiro de José Falcão então, instalado como advogado na cidade do Porto.  Paulo José Falcão como não teve descendentes resolveu contemplar em testamento, como herdeiro universal, o 'Asilo da Infância Desvalida', que, desde 1967, passou a chamar-se ‘Casa da Infância Doutor Elysio de Moura',  ali vizinha, e que ocupa  o antigo Colégio de Santo António da Pedreira. Em 1942, a Câmara Municipal, deliberou que a rua se voltasse a denominar rua da Trindade. Quando Paulo Falcão soube da deliberação, tornou ciente a direção do Asilo de que, ofendido como se encontrava ante o que ele considerava um desacato para a memória de seu pai, ia revogar aquela disposição da última vontade.
Perante esta ameaça, a deliberação de 1942 foi considerada nula e o 'Asilo da Infância Desvalida', veio a ser herdeiro universal de Paulo Falcão.

Entretanto, no edifício onde morou e morreu José Falcão surgiu uma unidade hoteleira e das ruínas do Colégio, nasceu nos últimos anos a Casa da Jurisprudência que permitiu uma necessária e importante expansão da Faculdade de Direito.
Com o antigo Colégio, morreu também a mítica e antiga taberna – o Pratas, que lhe ocupava uma pequena e insalubre parte e que dava vida à rua!

“Da Universidade à rua José Falcão,
Vai um pulo de anão,
Oráculo de vinho sem oração,
Em honra de Dionisio e Baco prazenteiros;
Morava o Pratas bonacheirão,
Alegre vendedor de carrascão,
Surrupiava trocos de académicos festivaleiros!

in José Alberto de Brito Cardoso, “A capuchinha de minha mãe”

domingo, 13 de outubro de 2019

Instituto Pasteur de Lisboa


Em 1898, Virgínio Leitão Vieira dos Santos um comerciante ligado ao negócio de vinhos em Salvaterra de Magos, funda numa sobreloja da Praça Luís de Camões, em Lisboa, o Laboratório Pasteur, que vem a denominar-se posteriormente, Instituto Pasteur de Lisboa.
Esta casa, passou a ser depositário de soros e vacinas produzidos pelo importante Institut Pasteur de Paris, vanguardista na pesquisa científica de doenças infeciosas e que veio a estar na origem de descobertas revolucionárias que permitiram à medicina controlar doenças infeciosas e epidémicas.
O Instituto Pasteur de Lisboa possuía quatro secções: Secção de fotografia, compreendendo tratamentos por métodos fototerapêuticos e pelos raios X, serviço de pensos, exame de doentes pelos raios X, Secção de análises clínicas industria e agrícolas, Secção de bacteriologia e Secção de farmácia e produtos esterilizados.

Paralelamente, comercializava ainda, leveduras selecionadas de todos os vinhos portugueses e estrangeiros, artigos de higiene, leites puros esterilizados e medicinais e ainda fabricava e vendia instrumentos cirúrgicos, mobiliário e material hospitalar.
Nos primeiros dias de Junho de 1942, o Instituto Pasteur de Lisboa, com vontade de expandir a sua área de negócio, inaugurou a delegação de Coimbra que passou a ter como diretor o Dr. Alfredo Chaves de Carvalho. Ao ato inaugural assistiram principalmente entidades académicas e cientificas. Estiveram o Dr. Maximino Correia, vice-Reitor da Universidade, Dr. Novais e Sousa, diretor da Faculdade de Medicina, professores clínicos e representantes da Imprensa.
Na altura, a cidade ficou mais rica, com uma oferta comercial de grande valor, e com um edifício imponente na rua Visconde da Luz. Com um beiral que encima o primeiro andar e respetiva janela oval, o recorte que encima a entrada do edifício, janelas em madeira no terceiro andar e os azulejos com que recortam zona as janelas do último andar.
Com desaparecimento dos interesses comerciais do instituto, o edifício foi-se degradando, perdendo até o seu nome, mas objeto de reabilitação, voltou a ser um dos prédios da baixa de Coimbra, com maior beleza.

1º Festival de Rock Yé-Yé


Em Abril de 1966 realizou-se no Teatro Avenida, em Coimbra, o "1º Festival de Rock Ye-Yé", em que participaram grupos musicais vindos de vários pontos do país. A representar Coimbra, dois agrupamentos: os "Cocktails" e os "Protões", formados por jovens com idades compreendidas entre os 16 e os 18 anos.
Era a festa do "rock", e o grande Teatro Avenida tomou-se numa pequena sala para comportar o elevadíssimo número de jovens que acorreram ao espetáculo. Durante as atuações dos grupos, ao som de gritos e histeria, choveram para o palco algumas batatas, tomates e milho - não numa manifestação de desagrado, mas antes como forma de toda aquela "malta", interagir com os músicos. Eram os "anos de ouro" da música rock em Coimbra.

Os "Cocktails" (foto) impressionaram a assistência (e o júri) do espetáculo com uma excelente interpretação do "We can work it out", dos Beatles, conquistando o 1º lugar. O grupo coimbrão era então constituído pelo Manso (guitarra), Gonzaga (bateria), Colaço e Romão (guitarras).

Última Barca Serrana


A navegabilidade do rio Mondego até à foz, permitia uma maior facilidade e rapidez na deslocação de pessoas e nas trocas comerciais.
O progresso rodoviário ainda estava longe, caminho-de-ferro não existia para o interior e a rapidez e baixo custo do transporte fluvial transformaram o Mondego, da nascente até à foz, no responsável pela subsistência e economia das populações por ele banhadas.
As embarcações desciam o rio, carregadas de madeira, lenha, carqueja ou carvão, com destino a Coimbra e Figueira da Foz, trazendo, no regresso, sal, pescado, milho, pipas 
de vinho e outras mercearias. Era nelas, também, que as lavadeiras das terras a montante de Coimbra levavam a roupa suja da população da cidade e regressava com a ela a cheirar ao aromático sabão marselha.

Vários eram os portos importantes no carregamento e descarregamento de mercadorias ao longo do Mondego, no século XIX e ainda em parte do século XX.
Entre outros tipos de barco que navegavam ao longo do Mondego, a que se impôs pela sua capacidade de transporte e carga, foi a Barca Serrana. Foi ela que deixou o seu nome ligado ao Mondego e que navegava diariamente pelas águas do rio, comandada pelo arrais, ora de vela desfraldada, ora puxada à sirga. De inverno, com as cheias, os barqueiros, usando uma vara, deslocavam-se ao longo dos bordos (com 16 cm de largura), que muitas vezes se encontravam cobertos de pez e farelo para não escorregarem, e assim vencer a velocidade da corrente!
Com o transporte terrestre alternativo o desaparecimento destas embarcações era inevitável. Resta a preservação da memória coletiva em relação à Barca Serrana. Para isso, continuam a construir-se réplicas de tamanho reduzido, cerca de 7/8 metros para ser colocadas em lugares turísticos, mas o exemplar melhor conservado e sem dúvida o maior de todos 16/17 metros, é o que se encontra patente no átrio do Museu da Marinha em Belém. Foi esta a última barca serrana a navegar no Mondego com destino à Figueira da Foz, fê-lo em 1965, para daí seguir, embarcada para o Museu da Marinha . Nesta última viagem, levou um passageiro muito especial, o Professor Doutor Luís Mendonça de Albuquerque que apesar de doutorado em Matemática, ficou na memória de quem o conhecia ou conhece a sua obra, na qualidade de Historiador – historiador dedicado e rigoroso – vocacionado para a História da Expansão Portuguesa e, sobretudo, para a História da Náutica. Produtor de uma vastíssima obra sobre ciências náuticas e dos descobrimentos marítimos quinhentistas, o Prof.º Luís de Albuquerque era um homem simples, cuja grandeza intelectual tanto honra a Universidade de Coimbra, onde foi professor!
Esta iniciativa, teve para além do Prof. Dr. Luís de Albuquerque, os  Prof. Arq. Octávio Lixa Felgueiras, Engenheiro Cabral Moncada, Dr. António José Soares e outros, todos na qualidade de amigos do Museu da Marinha.


sábado, 12 de outubro de 2019

Rua do Brasil


O Mondego ocupava quase todo o espaço onde atualmente é o Parque da Cidade. O troço de estrada que sai da Portagem para o Calhabé não existia. O rio vinha em época muito anterior até próximo das muralhas da cidade; depois, quando se construiu a ladeira (Couraça da Estrela), que vai em direção à rua da Alegria, existia ali uma ínsua e uma escada de pedra, que era utilizada pelas mulheres para acarretarem cântaros de água para consumo da parte alta da cidade. O transito que a partir da Baixa queria ir para a Portela ou sair da cidade para as Beiras, fazia-se pela rua da Alegria passava na 
falda do Jardim Botânico (antiga Cerca dos Bentos) até ao fundo da ladeira que se lhe chama “do Batista” e passando pela Arregaça, Calhabé, Fonte da Cheira, Nogueiras,  e seguia pelo Alto de S. João para a Portela.

 Depois de 1850, com as obras de grande transformação de Coimbra, demoliu-se parte da ponte, é   Parque da Cidade, conclui-se os paredões e o trânsito passou a circular sem ter que subir a rua da Alegria.  Tinha-se assim uma verdadeira Estrada da Beira em Coimbra.
feito o aterro fazer o
Emídio Navarro, muda-se de Viseu para Coimbra onde por vontade da família pretendia  estudar Teologia. Coimbra como terra de paixões que é, entra de amores com uma jovem, corta relações familiares e matricula-se em Direito.
Na ausência do  apoio financeiro da família como forma de subsistência trabalha como jornalista, chegando a fundar diversos jornais, como A Academia, Transmontano, Correio da Noite e Novidades e colaborou ainda na revista Brasil-Portugal.
Já formado em Direito, com país a viver em Monarquia Constitucional, Emídio Navarro ocupou cargos ministeriais nas áreas do Ensino Técnico e Agrícola, e nas Obras Públicas. Foi enquanto responsável por esta pasta que fez uns “jeitinhos” à cidade de Coimbra no alargamento do Cais das Ameias e do seu ajardinamento, no "Passeio Público" frente à Estação Nova e ao longo do rio, com áreas ajardinadas e arborizadas.
Para que o seu empenhamento não fosse esquecido, por proposta dos vereadores António A. Gonçalves e Manuel A. R. Silva, foi deliberado em 31 de março de 1888,  dar o nome de “Avenida Emídio Navarro” à projetada avenida entre o Porto dos Bentos e a Estação Nova.
Lá ficou a Estrada da Beira mais curta!
Em 1960, o V centenário da morte do Infante D. Henrique, constituiu comemorações de grande aparato. Houve delegações regionais por todo  o país com presenças de diretores de Institutos, Associações, Universidades, Camaras Municipais e outros.
Entre os visitantes estrangeiros em homenagem à memória do Infante, veio a Coimbra o Presidente da República Brasileira, Juscelino Kubitschek de Oliveira, a 9 de Agosto de 1960,  sendo nessa ocasião doutorado honoris causa pela Faculdade de Direito. 
A cidade entrou em euforia para ver a bandeira auri-verde do Brasil entrelaçar na de Portugal a exprimir o sentimento de amizade entre os dois povos e a esse propósito, o Presidente da Câmara, Dr. Moura Relvas, propõe que se ignore uma atribuição em 1955 do nome Brasil a uma rua em projeto, e que a chamada Estrada da Beira passe a designar-se Rua do Brasil na parte que vai da Avenida Emílio Navarro (Porto dos Bentos) até à extremidade nascente da Rua de Moçambique (Nogueiras), ideia prontamente acolhida por todo o executivo e passaram a fazer-se preparativos para a cerimónia de inauguração da lápide com o nome Brasil que acabava de ser dado à Estrada da Beira. Marcada uma nova manifestação de afeto para o dia 21 de Outubro de 1960, um convite especial ao Embaixador do Brasil em Portugal, Dr. Negrão Lima e a mais uma meia dúzia de oradores. Tudo a postos! As placas nas paredes dos topos da rua, cobertas com as bandeiras dos dois países, discursos bem preparados, lidos e relidos e eis que um grande temporal fustiga a cidade, forçando a que a cerimónia de inauguração da Rua do Brasil se realizasse no salão nobre  dos Paços do Concelho e o descerramento da lápide não pudesse acontecer.


Um acontecimento, inovador para a época. Hoje, mesmo com internet, inaugurar à distancia não é seguramente vulgar!

Palácio dos Grilos


O Colégio de Santa Rita ou dos Grilos pertencente à Ordem dos Eremitas descalços de Stº Agostinho (“frades grilos”), confinante com as ruas, da Ilha, e do Dr. Guilherme Moreira, teve uma vida curta enquanto casa de religiosos.

Devido à lei que extinguiu e expulsou as Ordens religiosas em Portugal em 1834, o colégio existiu mais ou menos 80 anos. Posteriormente o edifício foi ocupado pela Administração Geral do Distrito, e posteriormente posto à venda e adquirido, pelo Dr. Adrião Pereira Forjaz de Sampaio, onde viveu até 1870.

A partir daí a ocupação foi diversificada. Por lá passaram dois colégios masculinos: o Colégio de S. Filipe Neri e o Colégio Académico e o feminino  Colégio de S. José de Coimbra, pertencente à Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena que depois passou para a zona da Conchada. Foi sede da Associação Académica, e atualmente secretaria-geral e outros serviços da Universidade de Coimbra.
Enquanto alugado a particulares,  teve dois inquilinos que vieram a tornar-se figuras dominantes na sociedade Portuguesa, um no Estado e  outro da Igreja.  Primeiro como estudantes, depois como professores,  Salazar e Cerejeira,  viveram de 1915 a 1928  no, por exagero chamado “Palácio dos Grilos”. Como nem um nem outro estavam, vocacionados para os afazeres domésticos, pagavam esses serviços a criadas que entravam e saiam ao ritmo das insatisfações de ambos.
A limpeza e o asseio resultavam sofríveis, mas pior eram mesmo os cozinhados, onde faltavam cuidados e saberes e a inexatidão de contas sempre a favor delas. O problema carecia de solução feminina com outro aprumo nas tarefas e honestidade e outra mão para satisfazer os apetites de Salazar e de Cerejeira.
É aí que aparece Maria de Jesus, mulher experiente de Penela já com currículo a preceito, à custa de anteriores serviços a família prestigiada e apostada em conquistar uma nova vida na cidade académica, e é aí que irá trabalhar para os, então, docentes António Oliveira Salazar e Manuel Gonçalves Cerejeira. Maria de Jesus traz consigo a rudeza e a determinação da terra, “inteligência” e “vontade firme", duas das características ou qualidades que os dois lhe apreciavam.
Não tardou que a governanta impusesse a sua presença e atributos junto dos dois ilustres professores, a partir da faxina e da cozinha. Também não espantaria que mais tarde Salazar a levasse consigo quando assumiu funções governativas. O primeiro esfriamento entre os dois amigos dá-se, precisamente, por causa de Maria.
Fala-se na mudança para a Capital e Salazar propusera continuarem a viver os três numa nova casa, mas Cerejeira, já em ascensão na Igreja, recusa, insinuando que a partir dali tudo será diferente. Em Lisboa, dirá o futuro cardeal, “apartamos os nossos caminhos”, decidindo apenas encontros esporádicos, chegando a molestar a amizade entre os amigos.
Salazar tinha mais que fazer e precisava de quem lhe pusesse ordem nas miudezas e lhe organizasse o quotidiano, razão de ter ficado com Maria para si, que passou a ser a sua versão feminina, verdadeira guardiã do regime entre portas e assim dedicada até ao final do ditador!

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Mais uma corrida, mais uma viagem…

Dos acontecimentos passados que fazem perdurar memórias e emoções, aqui está uma cheia de encantos. No Largo do Arnado, uma pista de carrinhos de choque idêntica a outras que se instalavam em vários locais da cidade. As faíscas a saltar do chão, o “cheiro” a eletricidade, e a adrenalina que provocavam eram uma divertida alternativa a matinés
cinematográficas ou circenses, tardes desportivas, ou bailes de garagem. Rodar de forma destemida aos comandos de um veículo, aos gritos, a provocar choques sucessivos, a fazer curvas orbitárias e chegar ao fim da corrida pintados de nódoas negras, era um dos grandes fascínios deste divertimento.
Havia quem quisesse mostrar o seu poderio de “engate”, marcavam a gaja/gajo mais a seu gosto, iam sempre no encalço desse carro, o que levava sempre a inevitáveis choques frente a frente como se fosse um primeiro beijo. Da cabine e já com pouco fôlego, o “speaker” de voz enrolada anunciava: esta corrida terminou, mais uma corrida, mais uma viagem… as crianças não pagam mas também não andam!

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

A Última Olaria em Coimbra


Foi inicialmente chamada “fábrica do lagar”, por ter sido erguida,  há mais de 200 anos, num antigo lagar pertencente aos monges. Em 1824, um pintor de louça, Joaquim da Silva, realiza um contrato de arrendamento para nele instalar uma fábrica de louça. Joaquim da Silva, detentor de outras fábricas  
na zona das Olarias, por ocasião do casamento de seu filho Leonardo Ferreira da Cunha, dotou-o com esta fábrica ao fundo da rua Direita. Umas vezes por posse, outras apenas por administração, a fábrica vai passando de mão em mão até que em 1925, é adquirida por Alfredo de Oliveira. Com a sua morte, passa a denominar-se “Fábrica de Louça Viúva Alfredo d’Oliveira”, sob o controlo de Isabel Nobre, herdeira e legítima proprietária. É dela, o nome por que a fábrica e a louça ali produzida,  fica popularmente conhecida – “A loiça da Isabelinha”.
Em Janeiro de 1965 é anunciado o enceramento e, para encontrar uma solução que evitasse o seu fim, criou-se a Sociedade Cerâmica Antiga de Coimbra, Lda.’, constituída por  pessoas alheias à produção cerâmica, mas que por uma atitude bairrista, não gostavam de ver desaparecer o fabrico da Faiança Coimbrã, com vidrado de estanho que utilizava tradicionalmente azul cobalto em monocromia, mas também amarelos, verdes, e tons ocres, e que, durante muitos séculos, elevou o nome de Coimbra por todo o mundo. Ainda resistiu algum tempo, com mudança de proprietários e técnicas de fabrico, mas em 2008  foi inevitável, e o último reduto da memória de olaria de Coimbra, acabou!
Restam alguns moldes e instrumentos, e as muflas de meados do século XIX que suportam o pseudo-museu integrado no Restaurante que ali funciona!

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes

Desde a Praça 8 de Maio até à Avenida Sá da Bandeira, ao longo da antiga cerca do Mosteiro de Santa Cruz, a Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes, é repleta de história e acontecimentos.
O edifício de maior relevância histórica, é o Mosteiro de Santa Cruz, fundado em 1131 e que, foi sofrendo diversas alterações, restando pouco da sua essência original. D. Manuel I no século XVI patrocinou uma extensa reforma Manuelina no mosteiro, com o intuito de enriquecer e dignificar os túmulos de D. Afonso Henriques e D. Sancho I. Fez a reconstituição do Claustro do Silêncio e deu à igreja a sua aparência atual.
Outras obras, como a construção dos dormitórios, o Claustro da Manga, o Claustro da Portaria (onde hoje está a o edifício da Câmara), e um novo refeitório no lado norte do Claustro do Silêncio, devem-se a D. João III em 1527.
Com a extinção das ordens religiosas (1834), o espaço confinado de logradouro de monges, passa a ser uma das principais ruas, os seus espaços edificados, e parte do Mosteiro, cedido à Câmara Municipal em 1836.
A Associação dos Artistas de Coimbra (1861), cuja finalidade era prestar socorros mútuos aos seus associados e promover a prosperidade das artes e industrias, não tendo sede própria, ocupou a sala do refeitório dos cónegos regrantes de Santo Agostinho por empenhamento do Presidente da Câmara Dr. Manuel dos Santos Pereira Jardim (1818-1887),
Em Janeiro de 1864 é pedido pela Câmara ao Diretor das Obras Públicas para mandar fazer uma planta para a edificação dos novos Paços do Concelho. Em 1879, Coimbra já tinha uma nova Casa da Câmara.
Na ala nascente do Claustro da Manga, localizava-se anteriormente, a enfermaria, que teria substituído o velho hospital de S. Nicolau; na ala sul eram as oficinas tipográficas. A norte, no prolongamento do refeitório e no centro desta ala, projetava-se a capela dos ossos e a poente o dormitório dos noviços.
Outras alterações foram decorrendo, demoliram-se em 1888 as alas monásticas norte, sul e nascente do Claustro da Manga, ficando visível uma das mais importantes obras renascentista do nosso património (1533), de João de Ruão, acabando por ganhar um carácter público, com o nome Jardim da Manga.
O Mercado Municipal ocupa a antiga horta do Mosteiro em 1867, ainda que, com débeis instalações, e só em 1907, são concluídas as obras do Mercado do Peixe, elaborado pelo Arqº Silva Pinto. Em 2001 foi construído um novo Mercado Municipal de D. Pedro V, mantendo a memória do Pavilhão do Peixe.
Entre o Mercado e o Jardim da Manga, o Edifício dos Correios inaugurado em 1939, que substituiu um anterior destruído por um violento incêndio, em 1 de Janeiro de 1926.
Na cerca do Mosteiro havia ainda uma imponente torre sineira, situada na encosta de Montarroio (para onde foi mudada a Fonte Nova), que constituía uma notável marca urbana com 24 metros de altura, demolida em 1935, por ameaçar ruir.
A nascente da Torre sineira encontrava-se a Enfermaria do Mosteiro, hoje ocupada pela Escola Secundária Jaime Cortesão. A enfermaria foi construída no século XVII, no sitio da horta. O edifício ficou afastado das construções principais para evitar o perigo de contágio e proporcionar mais sossego aos doentes. Seguindo os bons princípios de construções hospitalares e que ainda hoje se observam, tinha uma longa fachada voltada para sul para que ficasse bem exposta ao sol, para melhoria dos enfermos. No muro do complexo, existe a Fonte da Madalena datada de 1729, uma das várias que existiam na Horta e Quinta do Mosteiro de Santa Cruz. Nela podemos observar uma inscrição em latim alusiva às lágrimas de Maria Madalena que dá o nome à Fonte, regando os pés de Cristo, numa alusão metafórica à água que corria da bica.
A poente da antiga Torre, foi edificado o celeiro no século XVII que veio substituir um local habitacional que existia desde o século XIII pertencente aos priores-mores.
Neste edifício veio a instalar-se em 1854, a cadeia civil de Coimbra, para substituir a Cadeia da Portagem. Atualmente existe uma esquadra da Policia de Segurança Pública.
Para contar a história desta curta rua, com menos de 300 metros, a que chamavam rua do Mercado, e sem um único habitante, mesmo resumindo ao máximo não foi possível usar menos palavras, não podendo contudo, deixar de referir que o nome da rua foi uma homenagem ao Comendador Olímpio Nicolau Rui Fernandes, administrador da Imprensa da Universidade, e principal iniciador da Associação dos Artistas de Coimbra.

domingo, 12 de maio de 2019

Ensino de Enfermagem em Coimbra

A primeira escola de enfermeiros em Portugal, surge por iniciativa do Prof. Doutor António Augusto Costa Simões, administrador dos Hospitais da Universidade de Coimbra em 1881.
Costa Simões em várias das suas publicações, nomeadamente na obra ‘A minha administração dos Hospitais da Universidade’, manifestava-se contra a atividade das ordens religiosas na assistência pública. Fundamentava a sua opinião de que as freiras se demonstravam algo descuidadas no cumprimento das regras de higiene hospitalar e medicação dos doentes, sendo mais recetivas às ordens dos capelães do que às prescrições médicas. 
Em Portugal apesar da legislação dos anos 30 do séc. XIX proibir, a presença de ordens religiosas, um grupo de Irmãs apoiadas por alguns membros da família real, pelo alto clero e por alguns aristocratas e burgueses, era tolerado pelo poder político. Esta situação desagradava ao médico e administrador Costa Simões levando-o a assumir a fundação da ‘Escola de Enfermeiros de Coimbra’, que considerava com enormes limitações, mas com o propósito de habilitar pessoas, estranhas a ordens religiosas, que substituíssem as irmãs de caridade nos hospitais.
As aulas decorriam nas instalações dos Hospitais da Universidade e o seu financiamento foi inteiramente assegurado pelo próprio médico.
Uma sucessão de factos, desde a jubilação de Costa Simões, impediu a evolução da escola de enfermagem que havia fundado, e só em 1919 foi criada a Escola de Enfermagem dos Hospitais da Universidade de Coimbra, que passou a designar-se Escola de Enfermagem Dr. Ângelo da Fonseca em 1931.
Em 1946 surgiu a Escola de Enfermagem Rainha Santa Isabel, uma iniciativa privada pertencente à União Noelista de Coimbra; em 1948, abre um Curso Geral de Enfermagem Psiquiátrica na Escola de Enfermagem Psiquiátrica entretanto inaugurada no Hospital Sobral Cid;  em 1955 foi criada a Escola de Enfermeiras Parteiras Puericultoras que formava especialistas, a qual veio a ser integrada na Escola de Enfermagem de Bissaya Barreto em 1973. Em 1983 esta formação, designada Curso de Especialização em Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica passou para a Escola de Enfermagem Pós-Básica Dr. Ângelo da Fonseca de Enfermagem; em 1971, surge a Escola de Enfermagem Bissaya Barreto agregada ao Centro Hospital de Coimbra.
Em 2006, as escolas superiores Dr. Ângelo da Fonseca e Bissaya Barreto fundiram-se, dando origem à atual Escola Superior de Enfermagem de Coimbra.

domingo, 7 de abril de 2019

Do Penedo da Saudade à Arregaça (II)

Rodeada de quintas, Coimbra sentia-se parcialmente penetrada de ruralidade e os arrabaldes, simultaneamente, interrompiam e continuavam a cidade, antes da sua integração em pleno século XX.
A nascente da antiga muralha que ligava as portas da cidade, a meia altura da colina o Seminário de Jesus-Maria-José, acompanhado na descida para a Arregaça, pela Ladeira do Seminário, onde este que escreve veio ao mundo.
Enquanto a evolução urbanística surgida na quinta de Santa Cruz rasgava novas artérias, a Arregaça mantinha-se confinada à Estrada da Beira e reduzidos caminhos a ligar as quintas.
Junto ao rio produziam-se laranjas de fazer inveja às suas rivais de Setúbal. A Ínsua dos Bentos, as
quintas do Tesoureiro Mor e da Furtada foram mutiladas e os seus terrenos expropriados para a construção da linha do Caminho de Ferro. Na Quinta denominada do Tesouro Velho ou Quinta da Arregaça, a produção de milho, legumes e laranjas foi substituída pela fábrica de cerâmica, que veio a denominar-se Sociedade de Porcelanas.
Não passou despercebida a prática desportiva, mesmo sem se prever que o futebol iria ser rei e senhor, criava-se em instalações cedidas pelos proprietários da Quinta de D. João o “Vitória Futebol Clube de Coimbra” que para além do desporto desenvolvia atividades culturais.
Para além da Quinta da Nora, e assentando numa vertente do morro conhecido por pinhal de Marrocos a casa senhorial da quinta da Boavista tinha a poucos metros o palacete da quinta das Varandas que nas cheias via os seus terrenos confundirem-se com o leito do Mondego. Quando isto acontecia, a sua vizinha Quinta da Estrela ficava quase toda submersa, acontecendo o mesmo com a passagem denominada “Arquinho”, que teria integrado o eixo viário romano”, e que parte ainda existe paralela à atual Av. Cónego Urbano Duarte. Este caminho que talvez partisse da Porta de Belcouce, junto à ponte e seguia para nascente pela Couraça Estrela, rua da Alegria, antiga “Via Longa”, Ladeira do Batista, Arregaça, passava pela quinta de Vila Franca, Portela e Torres do Mondego e ai encontrava-se com o que da cidade saia pelo lado nascente.

Do Penedo da Saudade à Arregaça (I)


Estava-se longe de falar em ruas e a Estrada da Beira ainda não ligava a Arregaça ao Calhabé. Com o campo de futebol nem se sonhava. As quintas das encostas e vale da Arregaça eram serpenteados por caminhos. Do outro lado do vale, o Pinhal de Marrocos, Quinta de S. Roque, Fonte da Cheira, Casal da Nogueiras e o Casal do Bedel.
Mais perto falava-se das quintas de Simão Homem, das Alpenduradas, da Fonte do Castanheiro, das Fonsecas, da Saudade, do Lobo, de D. João e das Hortas, algumas delas já com outras designações.
Bem longe as Serras da Lousã e Açor. Aos pés de quem do Pendo da Saudade olhava, o caminho das Alpenduradas que seguindo pelo atoleiro do Teodoro, desviava no Casal da Eira em sentido da encosta, para do outro lado do morro encontrar a Portela e Torres do Mondego, lugar onde se faria a travessia do rio na “Barca do Mondego” e viria a encontrar a estrada que vinha do lado sul da cidade, que se destinava a Bobadela!

A Estudantina de Santiago de Compostela

Há muito que os jornais de Lisboa e do Porto anunciavam que eles viriam a Coimbra, marcava-se o dia da chegada, o número de estudantes, tudo, mas em Coimbra ninguém acreditava.
Chegou-se a fazer uma assembleia geral no Teatro Académico - Colégio de São Paulo-o-Apóstolo, para combinar a receção, mas a dúvida tinha invadido todos os espíritos e saiu-se sem que se apurasse nada.
Quando se soube que a Estudantina de Santiago de Compostela vinha no comboio do Porto, uma grande parte de estudantes foi esperar os seus colegas à Estação Velha. Os vagões iam cheios. Iam sentados, de pé, uns sobre os outros, amontoados, às camadas.
Quando o comboio do Porto chegou um grito unânime partia de todas as bocas, de todos os corações – Viva a Academia Compostelana! 
A passagem da Estudantina de Santiago de Compostela pelo “velho” teatro com memoráveis espetáculos nas noites de 9 e 10 de Fevereiro de 1888, foi determinante para a criação, nesse mesmo ano, da “Estudantina de Coimbra” como era conhecida a Tuna Académica, precursora do fantástico movimento musical que contagiou e rapidamente se alastrou aos liceus e academias de todo o país.
A sua inicial formação era maioritariamente constituída por estudantes sendo que o seu primeiro regente o professor de música da Universidade, António Simões de Carvalho Barbas, e o seu primeiro presidente um dos fundadores da Associação Académica de Coimbra, o estudante Artur Pinto da Rocha!

terça-feira, 19 de março de 2019

Prisão Académica

Por alvará de 26 de outubro de 1559 foi determinado que a Universidade de Coimbra pudesse ter uma cadeia separada para os estudantes, professores, oficiais e mais pessoas da jurisdição do reitor e do conservador. Foi durante o reitorado de D. frei Bernardo da Cruz, o dominicano designado pelo Infante D. Henrique para estabelecer o Tribunal do Santo Ofício em Coimbra, que surgiu, pela primeira vez, a possibilidade de organizar uma cadeia destinada exclusivamente à população académica na Universidade.

Até ao estabelecimento da prisão académica, os estudantes e outras pessoas ligadas à Universidade, que infringissem as disposições estatutárias, eram detidas na cadeia pública de Coimbra, ao tempo instalada no primitivo castelo medieval.

A solução provisória para a detenção dos presos da comunidade universitária foi a utilização das instalações do Aljube Episcopal, junto ao Paço do Bispo de Coimbra do lado poente da Sé Nova, mudando posteriormente para o piso inferior do edifício principal do Paço das Escolas, mais precisamente sob a Sala dos Capelos.

Com o plano de remodelação dos vários edifícios universitários, o reitor reformador, D. Francisco de Lemos, informou o Marquês de Pombal da necessidade de transferir a cadeia universitária para dependências localizadas nos pisos inferiores da Biblioteca Joanina. O Marquês de Pombal anuiu e apoiou de imediato,  as obras foram realizadas e os académicos presos a partir de 1782 eram instalados em masmorras gradeadas, em cubiculos onde um homem mal cabia deitado, dispondo de um conforto higiénico até aí impensável – latrinas (foto)!

Os restos ainda existentes, deste cárcere medieval, constitui um raríssimo testemunho europeu de uma antiga cadeia privativa.

Antes da extinção definitiva do cárcere académico (1834), ainda iria funcionar no primeiro piso do extinto e demolido Colégio de São Boaventura, situado a escassos metros do Pátio das Escolas.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

A Cabra, o Cabrão e o Balão

Hoje como no passado, os sinos da Torre da Universidade, convocam a comunidade académica para os atos solenes realizados na Sala Grande, do mesmo modo que dobram em tom fúnebre pela morte de um professor. Comandam também a vida da cidade, com o toque de um sino do lado nascente, conhecido como “Balão”, e dá as horas a “doutores” e “futricas”. O sino do lado oeste, virado ao rio, celebrizou-se como “cabra”. 

O toque da “cabra” desempenhava um papel fulcral no quotidiano universitário. Ainda hoje este sino se faz ouvir, ao fim da tarde, e no dia seguinte se for letivo. A partir das sete e trinta da manhã, ouve-se o seu tocar, acompanhado agora por outro virado a norte que, por ter maiores dimensões e um som mais grave, a gíria estudantil atribui-lhe o nome de “cabrão”. 

Hoje, o toque é mais simbólico, mas quando os relógios eram escassos, e o demónio da “cabra” começava de lá - Dlen, dlen! - Dlen, dlen!, eram-lhe rogadas pragas e manifestava-se uma grande vontade de arrancar a língua ao inimigo – aconteceu primeiro, em 1864 que um grupo de estudantes roubaram o badalo do “cabrão” que deixou a Universidade sem voz, e voltou a repetir-se na manhã de 21 de Fevereiro de 1933, quando, arrombando a porta da Torre, foi roubado o badalo, desta vez, da “cabra”, com a finalidade de conseguirem um feriado, que porém, dado que tocou o “cabrão”, houve aulas na mesma. Uma desilusão! 

O badalo da cabra esteve na Beira Alta, aos cuidados de um padre, até que regressou a Coimbra, a 23 de Novembro de 1952, sendo oferecido ao Museu Académico!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A Charamela da Universidade de Coimbra


Embora nos séculos XVI e XVII a palavra portuguesa 'charamela' tenha designado instrumentos de palheta dupla, metida dentro de uma cápsula ou bocal, usados em conjuntos de música instrumental ou no acompanhamento de corais, essa palavra assumiu um outro significado em Portugal no século XVIII, sendo usada para designar um conjunto de trombetas naturais (trombetas sem válvulas) que realçavam as festas ao ar livre, as procissões, torneios e cortejos triunfais.
Sabe-se da existência de conjuntos de instrumentistas de sopro de madeira/metal na corte portuguesa desde o séc. XIV, em forma de capelas da “música alta”, com o uso de charamelas (= chirimias), destinada a animar os serões dos monarcas ou abrilhantar as solenidades da realeza.
Na Universidade de Coimbra, a importância da música vem da Idade Média, usando-se por vezes singelas composições instrumentais, resumindo-se até a “tubis et angulis”, trombetas e cantos, como nas cerimónias académicas a que aludem os estatutos de 1393 [1].
A Universidade, contratando músicos isoladamente, ou mediante protocolos, manteve a sua charamela, que acompanha os préstitos e toca na Sala dos Grande dos Atos, nas cerimónias da Abertura Solene das Aulas, Imposição de Insígnias e nos Doutoramentos Honoris Causa.
Atualmente na sua formação mais usual incorpora trompetes, trompas, trombones, bombardino e tubas. Além das peças musicais e de toda uma tradição multissecular, os charameleiros apresentam-se com uniformes do inicio do séc. XX.
Profundamente desacreditada pelos estudantes antimonárquicos e anticlericais nos finais do séc. XIX, teve ainda dois momentos marcantes de interrupção de atividade:
- Em 1910, aquando da Implantação da República. Destituída a monarquia constitucional o regime republicano suspendeu os atos cerimoniais, que só retomaram a 30 de Novembro de 1918, sob a batuta do regente do Orfeon Académico, Dr. Elias de Aguiar com uma composição de 12 músicos;
- O segundo período de interrupção das tradicionais solenidades académicas e consequentemente a inatividade da Charamela, foi durante o luto académico que começou com a Crise Académica de 1969 e se prolongou até 1980.

Atendendo às diversas marcas do tempo e à conjugação musical que existiu nas cerimónias académicas, o ritmo cadenciado, que a Charamela ainda hoje executa, desde sempre contribuiu para que os préstitos académicos tivessem um maior brilho e uma notável dignidade!

[1] Os estatutos estão conservados no “Livro Verde”, que tem esse nome devido à encadernação de veludo verde que teve, e é uma cópia de vários documentos antigos, feita em 1471, pelo escolar de Cânones Vasco do Avelar.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Pregões

Os pregões são vozes ou pequenas melodias com que os vendedores ambulantes anunciam a sua mercadoria utilizando normalmente a mesma maneira de apregoar para o mesmo artigo. Apregoa-se pelo mundo inteiro e esta forma de “marketing” vem de longa data.

Com a diminuição destas vozes e sons, as cidades, e Coimbra em particular, ficaram cada vez mais silenciosas e mergulhadas numa mudez doentia.

Ouve-se ainda: “amolador à porta.... amola facas, tesouras e canivetes... arranja chapéus de chuva...”. O amolador aparecia com o seu característico carro-banca, agora bicicleta, a fazer notar a sua presença com o vibrato característico da flauta de pã, também conhecida por gaita de capador!

A anunciar o Outono, um carrinho com fogareiro, onde assa castanhas que depois mete num cartucho de jornal velho e de vez em quando, a clientela é chamada pelo vendedor de castanhas com o pregão “Quentes e Boas!... Ó freguês, uma dúzia uma coroa…”, ( agora euro e meio).


Percorrendo ruas e vielas o homem das cautelas vai dizendo: “amanhã anda a roda… Sai a sorte grande… Quem fica com a taluda?”



De verão, já muito raramente, ainda se vê o vendedor, montado numa bicicleta com um carrinho onde guarda os sorvetes, que refrescam as gargantas alertando com o pregão “Gelado fresquinho! Frut'ó chocolate!".
Acabou o Pitrolino a chamar os clientes com uma corneta. Chegava numa carroça puxada a muar onde transportava a sua mercadoria: combustíveis como petróleo e álcool etílico; condimentos como azeite, vinagre ou sal e produtos de limpeza como sabão, lixivia, piaçabas, vassouras, penicos ou palha de aço.

Com a venda do leite empacotado, desapareceram também as leiteira que carregadas de vasilhas e medidas, faziam-se anunciar em tom melodioso, “leiiiii…teiiiiiiiiii…ra!...”
A padeira com um grito mais seco anunciava a sua presença – “padeiiiira!”.

Os Ardinas gritavam cantarolando: “Seculooó, Notícias! Olh'ó Diário Popular! Diário… Diário de Lisboa! Diário de Coimbra! Despertar! de sacola cheia de jornais pendurada no ombro percorriam toda a cidade e ao mesmo tempo, dobravam o jornal que atiravam para a janela de alguns clientes certos. De voz cavernosa o “Taxeira” acrescentava ao pregão algo que mostrava bem o seu academismo: “Olhó Ponney, traz o Benfica à rasca!...”.

Muitos outros pregões se ouviram ao longo dos tempos das vendedeiras de arrufadas, carqueja, das lavadeiras, engomadeiras, ferro-velho, ou bolos de Ançã, mas há um, que ficou no ouvido de todos:

"...Sardinha d'areeeeeeeeiiiii...ia! Ó freguesa, está fresquinha...é grande como a cavala!". As peixeiras da Figueira da Foz, acabadas de chegar, em camionetas de caixa aberta com o pescado em canastras que colocavam à cabeça, logo partiam a calcorrear a cidade de uma ponta à outra enquanto algumas ficavam no Mercado a lançar os seus pregões para ali fazer o seu negócio.

As sardinheiras apenas vendiam sardinha e as peixeiras em geral tinham  oferta variada: “peixinho fresquinho... é do nosso mar... venha ver freguesa... carapau vivinho a saltar... olhó chicharro vivo!... que rico biqueirão!... linguados…estes são da pedra!... Ó rica santa, não me compra nada?...”.

Assim era a cidade… hoje continua a ter sons, mas sem melodia!

Do Colégio de S. Tomás ao Palácio do Conde do Ameal


O Convento de S. Domingos, já se havia instalado em Coimbra no sitio da Figueira Velha (ao lado do atual edifício dos CTT na Av. Fernão de Magalhães) mas, teve de se transferir para a rua da Sofia, dado o assoreamento do rio e suas inundações.
Por volta de 1549 arrancaram, as obras em terrenos cedidos pelos frades de Santa Cruz, proprietários daquela via, não para um mas para dois edifícios distintos: um para casa conventual dos religiosos da Ordem dos Pregadores (Dominicanos), que não foi concluída como o previsto por falta de verbas e outro para o Colégio de S. Tomás de Aquino destinado ao ensino e residência dos Dominicanos universitários, lentes ou estudantes.
A construção inicial do colégio era muito pobre, tendo ganho importância com a execução do portal, de que se encarregaram o escultor António Fernandes e os pedreiros Pedro Luís e João Luís. Em 1555, sob orientação do arquiteto Diogo de Castilho iniciou-se a construção do claustro do tipo comum dos claustros quinhentistas conimbricenses da Renascença.
Em 1566, o edifício estava em condições de ser utilizado, funcionando como Colégio Universitário.
Em 1834, no âmbito da "Reforma geral eclesiástica" empreendida por Joaquim António de Aguiar, executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas, sujeitas aos respetivos bispos, até à morte da última freira. O Colégio de S. Tomás como ficou conhecido não escapou aos efeitos da Revolução Liberal e em 1837, foi incorporado nos bens da Fazenda Nacional.
O edifício foi caindo em abandono até que em 1892, é colocado à venda no jornal local O Conimbricense e adquirido pelo político João Maria Correia Aires de Campos (1847-1920), feito 1º Conde do Ameal pelo rei D. Carlos, em 1901, arqueólogo, investigador de temas históricos, grande colecionador de arte, bibliófilo e detentor de uma das mais importantes coleções privadas de arte do país, sobretudo de pinturas, porcelanas e faianças, nacionais e estrangeiras e de uma das maiores bibliotecas privadas do país.
O projeto e transformação do antigo colégio para receber e exibir as numerosas coleções ficaram a cargo do arquiteto Silva Pinto.
Apesar da sua firmada experiência museológica, não existia ainda em Coimbra nenhum museu público de arte de referência, e é assim que nasce um “verdadeiro museu provincial”.
Os seus quartos, apesar do exterior clássico e sóbrio do prédio, eram repletos de móveis preciosos, pinturas de mestres antigos e cerca de 30.000 livros raros, enquanto o palácio se transformava em um vibrante salão cultural. A sua coleção de pinturas, que no seu auge somava mais de 600 peças exibidas em 10 salões, incluía telas de Rembrandt, Rogier van der Weyden, Pieter e Jan Breughel, Rubens, Caravaggio, Guido Reni, Pietro da Cortona, Ribera, Zurbarán, Rembrandt, Salvator Rosa, Luca Giordano, Murillo, Jean-Pillement, Goya, Fortuny ou Carolus.
Grande admirador de pintores portugueses contemporâneos, particularmente da escola realista que estava no auge da sua popularidade, o Conde do Ameal também possuía uma grande coleção de telas e desenhos de Silva Porto, Alfredo Keil, Artur Loureiro, José Malhoa, João Vaz ou Veloso Salgado, passando pelo pintor seiscentista Diogo Pereira, por Vieira Lusitano, Domingos Sequeira, Vieira Portuense, António Manuel da Fonseca ou Francisco Metrass. Patrocinou alguns artistas portugueses contemporâneos, a saber, o discípulo de Silva Porto, Ezequiel Pereira, que ele enviou para Paris e Bretanha na década de 1890. Outras partes importantes da coleção do conde foram a seleção de porcelana e faiança islâmica, a maioria ibérica e o final da Idade Média, que somavam cerca de 800 peças, e sua coleção numismática, já iniciada por seu pai, que contava 3558 moedas.
O Conde do Ameal, dotado de imensos predicados em vida, acabaria por se tornar mais conhecido pela desagregação da sua coleção de arte do que pela forma como esta foi constituída ou mesmo pelos objetos que a integraram.
Vitimado por uma “congestão cerebral”, a sua morte no dia 13 de julho de 1920 abre caminho para a 18 de Julho do ano seguinte, Coimbra começar a assistir ao desfazer de uma das mais interessantes, preciosas e acarinhadas coleções de arte que no nosso pais existia.
O leilão Ameal talvez tenha sido o acontecimento ligado à Arte mais curioso e emocionante do último século com bons e maus negócios onde as cotações vistas a esta distância mostram a importância do evento - (exemplo: “ O Rebanho” de Silva Porto 26.900$00). O governo proibiu a saída de peças para o estrangeiro, o que através de delegados portugueses acabou por não dar efeito e o Ministro da Instrução determinou que antes do leilão deveriam ser adquiridas ao preço de avaliação, as peças que interessassem aos museus de Lisboa e Porto, tendo também sido adquiridas peças para o Museu Grão Vasco em Viseu.
Coimbra apenas as viu passar… nada foi feito para que algumas obras de arte ficassem na cidade.
A distintíssima e fidalga família dos Ameais da Rua da Sofia, pode assistir, entre saudades e tristezas, que não se confessam, ao desmanchar daquela feira preciosa de documentos universais de arte, e após a feira, à almoeda pública do palácio, do solar, dos jardins, dos claustros, de tudo o que foi o antigo Colégio de S Tomás.
E porque muitos dos velhos edifícios conventuais foram transformados em quartéis, tribunais ou repartições, alterando-lhes sempre a primitiva traça ou demolindo-os totalmente, o Colégio de S. Tomás não fugiu à regra. A 27 de Janeiro de 1928 o Ministério da Justiça adquiriu o edifício por 625 contos, com a finalidade de nele se acomodarem todos os serviços judiciais da Comarca e da Relação de Coimbra.
Se a primeira remodelação foi essencialmente de interior, a segunda para adaptar a casa da justiça alterou toda a traça antiga, incorporou trabalhos escultóricos, serralharia artística, marcenaria executados por artistas conimbricenses e painéis de azulejo nos quais Jorge Colaço primou.
Do primitivo colégio ainda se pode observar a bela arcada renascentista do claustro, enquanto que o magnifico portal é hoje parte integrante da parede externa do Museu de Machado de Castro.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Capela de S. Sebastião


Ao lado da rua de Santo António dos Olivais para o Tovim, assenta, numa elevação, a Capela de S. Sebastião. Num manuscrito encontrado, constava que esta capela, hoje atrofiada pelas construções que a rodeiam, fora obra de um mestre-escola da Sé, mas esse documento nada diz da sua fundação.
Anda-lhe porém ligada a recordação da espantosa peste de 1599. Por ser sítio isolado, com bons ares,
organizou-se junto dela uma "casa de saúde", como então se lhe chamou, formada de pobres barracas, tendo tomado conta dela os padres da Companhia de Jesus. Em ajuda para tratar dos enfermos vieram ainda dois religiosos do próximo convento de Santo António, Fr. Francisco e Fr. Diogo, dois do convento de S. Paulo e dois da ordem terceira de S. Francisco ou colégio de S. Pedro dos Borras, Fr. João Cabreira e Fr. Aleixo, além de vários cirurgiões. Alguns religiosos lá morreram vitimas da epidemia e foram sepultados ao fundo dos degraus do alpendre da capela, cujas campas estiveram ali durante muitos anos.
Um outro facto histórico ainda ligado àquele sitio, foi a execução de três milicianos que pertenciam ao regimento da Figueira da Foz, e que durante as Invasões Francesas, estando de guarda,  fugiram assim que viram aproximar-se o exército francês.
O Conselho de Guerra, reunido em Coimbra, condenou-os à morte. Empregaram-se todos os esforços para lhes ser comutada a pena, mas o marechal Beresford que, paralelamente com Wellington, comandava as forças unificadas britânicas e portuguesas, não anuiu. A sentença foi ali executada em abril de 1812, e sepultados na cerca do convento de Santo António dos Olivais.
A Capela de S. Sebastião foi restaurada a expensas do Sr. Francisco do Nascimento Martins, inaugurando-se a 16 de Setembro de 1945.

sábado, 14 de julho de 2018

Agência do Banco de Portugal que deixou voar as notas

A 17 de maio de 1967  Camilo Mortágua, juntamente com Palma Inácio , António Barracosa e Luís Benvindo entraram entre as  15 e 16 horas  na agencia do Banco de Portugal na Figueira da Foz,  com recurso a uma arma autêntica e outras de plástico, apoderaram-se de notas no valor mais de 29 mil contos, valor que equivaleria hoje a cerca de dez milhões de euros. Ao sair, serenamente com os sacos às costas como de batatas se tratasse, cruzaram-se  pelo  polícia, cumprimentaram-se cordialmente meteram-se num carro e seguiram até ao aeródromo de Cernache onde a Associação Académica de Coimbra tinha o seu Centro Aeronáutico. Prenderam a mulher do guarda, o diretor do campo  e três pedreiros que trabalhavam próximo. Obrigaram o guarda a encher os depósitos de uma   duvidando que a pequena aeronave suportasse o excesso de carga e pela pista estar cheia de lama.
avioneta, tipo Auster, e manietaram-no junto dos restantes. Ofereceram uma pistola de plástico a um filho do guarda, avariaram os motores do carro que usaram e de dois outros, entraram para o pequeno avião – só tem lugar para três pessoas e levantaram voo,
A avioneta foi descoberta no dia seguinte de manhã nuns terrenos Junto de Vila do Bispo, no Algarve e mais tarde vários pescadores viram sair de um carro dois indivíduos com sacos, na Praia da Luz.
O Banco de Portugal enviou aos jornais um comunicado no qual informava que a maior parte do dinheiro roubado, não podia ser utilizado, devido a serem séries, e que por causa do roubo foram imediatamente retiradas da circulação.
Os quatro operacionais conseguem escapar de Portugal com o dinheiro e chegaram a Paris dois dias depois. O destino do dinheiro era criar uma organização, como veio a acontecer a 19 de Junho com a criação da LUAR.
Em Portugal, foram feitas prisões de cúmplices deste assalto e os quatro assaltantes julgados à revelia em tribunal comum, a forma de o regime não reconhecer o caráter político ao crime.
Camilo Mortágua foi condenado a 20 anos de prisão, a pena mais pesada, Palma Inácio a 16, e António Barracosa e Luís Benvindo a 13 anos.
Depois do 25 de abril de 1974 houve amnistias por se tratar de um crime político!